domingo, 14 de agosto de 2011

DEÍSMO MORALISTA TERAPÊUTICO


Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

A expressão “deísmo moralista terapêutico” foi criada pelo sociólogo Christian Smith para designar a compreensão de Deus nutrida pelos jovens norte-americanos. Ele pesquisou durante cinco anos a visão religiosa dos adolescentes dos Estados Unidos, e publicou suas conclusões no livro Soul searching: the religious and spirituals lives of american teenagers (Oxford University Press). Ele mostra como esta visão está distante do ensino bíblico. Algumas de suas conclusões estão em português, nos livros Cristianismo sem Cristo – o evangelho alternativo da igreja atual, de Michael Horton (Editora Cultura Cristã) e Deuses falsos, de Timothy Keller (Thomas Nelson). Examinando-as, o leitor verificará que em nada diferem dos adolescentes brasileiros, nem dos crentes em geral. Lendo estas obras constatei que o credo evangélico brasileiro é, sem sombras de dúvida, o deísmo moralista terapêutico.

O deísmo moralismo terapêutico pode ser definido como “Uma crença em que Deus abençoa e leva para o céu as pessoas boas e sinceras que tentam viver uma vida decente aqui na terra (o moralismo). A coisa mais importante da vida é se sentir bem, estar em paz consigo mesmo, e ser feliz (o terapêutico). Deus não precisa estar envolvido em nossa vida, ou seja, não é um Deus pessoal. A não ser nos momentos de aperto, quando ele se aproxima e nos socorre (o deísmo)”.

Horton fez uma boa descrição dos seus pontos:
1. Deus criou o mundo.
2. Deus quer que sejamos bons, educados e justos uns com os outros, como
todas as religiões
ensinam.
3. O objetivo central da vida é estar em paz consigo mesmo.
4. Deus não precisa estar envolvido com ninguém, exceto quando a situação
for muito aflitiva.

5. Todas as pessoas boas vão para o céu.

Sintetizando:

Deus é uma força criadora, uma energia. Devemos ser bons. A felicidade é o bem supremo da vida. Não precisamos procurar por Deus, a não ser quando a coisa fica feia. E a salvação é universal. É uma religião humanista em que o Transcendente não é tão relevante assim. O fiel olha para baixo, ao invés de olhar para cima. Olha para dentro, ao invés de olhar para fora. A preocupação é consigo mesmo, e não com o mundo. A ética é calcada sobre si, pois a decência na vida é para se sentir bem, em paz, não por amor ao próximo ou como um ato de culto a Deus. É uma barganha, nada mais.

Isto não é exclusivo dos jovens americanos ou brasileiros. Parece ser a pregação nas igrejas evangélicas, que baniram o pecado, a necessidade de expiação, a morte vicária de Cristo e a condenação para os que o rejeitam. E onde o Transcendente é apenas uma Força que pode ser manipulada em benefício do fiel. Num mundo egoísta, em que as pessoas querem apenas satisfazer suas carências e vêem Deus como o grande quebrador de galhos, que vai enriquecê-las e resolver todos os seus problemas, esta mensagem encontra grande aceitação. Deus existe para seu benefício e satisfação pessoal. Há igrejas que estão há anos sem ouvir um sermão sobre a obra vicária de Cristo, a chamada ao arrependimento e abandono do pecado.

A mensagem parece ser esta: você tem direitos, deve exigi-los, e se souber exigir segundo aquela igreja ensina, será abençoado. Mesmo que viva em pecado. Aliás, pecado caiu em desuso. O único pecado é a falta de amor. Um livro bem interessante sobre este tema é de um teólogo católico, Moser: O pecado ainda existe? (Edições Paulinas). Parece que não. Existe apenas a necessidade dos clientes a serem satisfeitos na igreja.

A pregação de hoje parece mais focada na terapia (como Deus pode tornar alguém feliz) do que nas exigências de Deus. As necessidades do cliente são mais fortes que a proclamação da santidade de Deus. Oferece-se graça (geralmente ligada à saúde, bens materiais e resolução de conflitos familiares), mas omite-se a santidade de Deus. Quando você ouviu (ou pregou) pela última vez, um sermão falando da santidade de Deus e do pecado humano?

Há pregadores mais interessados em fidelizar clientes, dizendo-lhes o que querem ouvir do que proclamar os atos de Deus em Cristo, dizendo o que Deus quer ouvir. Prova disso são as faixas de campanhas de igreja, que relaciono a seguir (faixas reais, que vi): “Venha buscar sua bênção!”, “Uma bênção a cada culto!”, “Nós temos uma bênção para você!”, “Você nasceu para vencer!”, “Aprenda a vencer o Devorador”, “Venha recuperar o que é seu”, “Aqui, a bênção é maior!”. E, por incrível que pareça, esta (não vi, mas me disseram): “Aqui, o seu dízimo é apenas 7%” (e há gente pedindo 30%!).

Há pregadores que colocam o foco em si. Sua mensagem glorifica seu ministério. Antigamente os crentes oravam dizendo: “Esconde teu servo atrás da cruz de Cristo”. Hoje há quem esconda a cruz de Cristo atrás de si. Como disse um membro de igreja: “O tema predileto de nosso pastor é ele mesmo”. Com este tipo de pregação personalista, massageadora do ego, lisonjeira ao pecador, não é se de admirar que o deísmo moralista terapêutico esteja em expansão. É o credo oculto de muitas igrejas. Mas bem explícito nas pregações.

Preocupa-me ver que as igrejas hoje estejam caminhando para o ecologismo, num discurso politicamente correto, mais interessadas em mostrar sintonia com os novos tempos, do que se prender aos velhos tempos. Igreja tem função mais importante que falar de ecologia e ensinar coleta seletiva de lixo.

Ela é pregoeira dos atos de Deus em Cristo. Ela deve dizer como Paulo: “Porquanto decidi nada saber entre vós, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado“ (1Co 2.2). Sua missão é mais ampla e mais profunda que dizer aos homens que devem bons e amigáveis. Ela deve dizer: “Assim, vos suplicamos em nome de Cristo que vos reconcilieis com Deus” (2Co 5.20).

A igreja deve pregar o evangelho e pregar o evangelho não é fazer saraus musicais ou shows gospéis. É dizer que o homem é pecador, que necessita se arrepender de seus pecados e crer em Jesus Cristo, que ele voltará em poder e glória e julgará o mundo. No deísmo moralista terapêutico, nossa função é apenas cuidar do mundo que a Força Cósmica produziu.

O deísmo moralista terapêutico tem avançado porque igrejas e pregadores têm negligenciado a pregação autêntica. As igrejas não devem se preocupar em serem “igrejas amigáveis”, mas sim de serem igrejas leais à essência do evangelho. E esta ainda é a mesma: “... Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras” (1Co 15.3-4) e “... a trombeta soará... “(1Co 15.52).

Deísmo moralista terapêutico é a perversão do evangelho. É um evangelho humano, de gente que se serve do evangelho, mas não prega a verdade bíblica. É uma infelicidade para a igreja porque a enche de pessoas que sequer sabem o que é seguir a Cristo, mas que se julgam cristãs. Imunizam-se contra o verdadeiro evangelho. Deus cobrará desses pregadores e dessas igrejas o desvio que fizeram.

O evangelho que Jesus revelou é “Cristo crucificado, poder de Deus para salvação de todo aquele que crê. O evangelho do deísmo moralista terapêutico é a negação de Jesus. É anátema. Que seja recusado. Está na hora das igrejas e dos pregadores voltarem à Bíblia, e mais particularmente, ao Novo Testamento.

Isaltino Gomes Coelho, escritor, professor e mestre em Teologia (VT) e pastor da Igreja Batista em Macapá.


Um comentário:

  1. Muito bom! Deus te abençoe e continue te usando com grande autoridade!

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