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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Os braços, as mãos e os acenos saudosos


Gente, 
sempre visito minha mãe que mora bem longe, apesar de morarmos na mesma cidade, no Rio. Ela fica na janela do seu apto me vendo ir embora até eu sumir e dobrar a esquina. Toda semana estou lá. Quando vou embora, depois de pedir a bênção, caminho até o ponto do ônibus e dou meu primeiro aceno ainda no portão do prédio. Atravesso a rua e vou caminhando uns 300 metros até dobrar a esquina. Vou parando e olhando para sua janela (4º andar) e lá está ela com seus cabelos brancos e bonitos esperando para acenar. Sempre é assim a minha despedida. 
Hoje foi um destes dias.
.
Hoje não pude deixar de lembrar da dor de um pai - o pedreiro que ontem ao acenar para seu filho único de 26 anos, como sempre fazia enquanto ele atravessava a passarela, sem imaginar que seria seu último balançar de braço com toda o significado que isto tem ao vê-lo despencar e ser atirado dentro do canal que levaria a sua vida. 
Que dor, que tragédia!
.
Neste momento pensei em minha mãe que já perdeu sua filha caçula, netos e genro de uma forma trágica e pedi ao Senhor que a poupe de ver isto novamente.
Deus console e cuide deste pai e mãe que viam no Adriano de Oliveira (nome do jovem) um motivo de orgulho. Dizem todos da comunidade que ele era o orgulho dos seus pais que muito fizeram por ele e o único da família a ter um curso superior. A dor de ver um filho morrer enquanto sai para seu trabalho cotidiano, diante da rotina diária de acenar para seu querido é de doer o coração.
Hoje acenando para minha mãe doeu meu coração por aquele pai. Não posso nada diante desta tragédia, mas escrevo isto lembrando que a vida é breve e que nos pequenos - ou nem tão pequenos - atos de braços, acenos e abraços, que estes sejam cheios de amor e ternura.

Abraços para todos
westh ney rodrigues luz 

segunda-feira, 5 de março de 2012

A vida, a morte... - Rev. Mozart Noronha

Eu não sei o título que o pastor da Igreja luterana de Ipanema deu.MAs escrevo aqui tudo que pude guardar e anotar ontem dia 04/03/2012, no sermão na Igreja Anglicana de Copacabana.


Ele começou falando de Dom Robinson Cavalcanti que foi morto nesta semana em um uma grande tragédia. Falou da sua doçura dele desde criança pois o conhece desde a meninice de ambos.

Falou sobre a Teologia da Cruz que diz que o cristão não está imune ao sofrimento.

Começa então a ler com sua voz calma e pausada a canção -

O Que É, O Que É? Gonzaguinha


Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita e é bonita...

Viver! E não ter a vergonha de ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser Um eterno aprendiz...


Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei que a vida devia ser
Bem melhor e será mas isso não impede
Que eu repita É bonita, é bonita
E é bonita... E a vida!
E a vida o que é? Diga lá, meu irmão
Ela é a batida de um coração
Ela é uma doce ilusão Hê! Hô!...

E a vida ela é maravilha Ou é sofrimento?
Ela é alegria Ou lamento?
O que é? O que é? Meu irmão...

Há quem fale que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo...

Há quem fale que é um divino
Mistério profundo é o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor...
Você diz que é luta e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é e o verbo é sofrer...

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...
Sempre desejada, por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte, só saúde e sorte...
E a pergunta roda, e a cabeça agita
Eu fico com a pureza da resposta das crianças
É a vida, é bonita, e é bonita...

Assim ele começou seu sermão ontem, dia 04/03/2012, na Paróquia Anglicana da Santíssima Trindade (Copacabana). Falou sobre como o compositor popular Gonzaguinha define a existência de forma para paradoxal e ao mesmo tempo com a linguagem poética.

Fala sobre nosso amado poeta e sua morada no Hotel onde hoje é a Casa de Cultura Mário Quintana que diz assim:

“Esta vida é uma estranha hospedaria,
De onde se parte quase sempre às tontas,
Pois nunca as nossas malas estão prontas,
E a nossa conta nunca está em dia."

Cita nosso épico Luis Vaz de Camões que traduziu os anseios do homem renascentista e que no seu poema maior lembra
" ... as memórias gloriosas dos Reis que foram dilatando/
A Fé, o Império, e as terras viciosas/
De África e de Ásia andaram devastando, /
E aqueles que por obras valorosas /
Se vão da lei da Morte libertando,/
Cantando espalharei por toda parte,/
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Fez outra citação (talvez Roger de Bussy-Rabutin), não sei se ouvi direito) que diz:
“Amo a morte com o mesmo amor que amo a vida (...)
a morte não é um limite, não é uma negação da vida,
mas dá grande significação à vida”.


Citando Rubem Alves fala sobre o indivíduo que morre, mas em contrapartida a pessoas não. É insubstituível. A pessoa está fora do seu tempo onde não se nasce e nem morre...

Falou sobre a doçura de Dom Robinson Cavalcanti que desde pequeno, junto com ele estudaram em um Colégio interno (acho que em Pernambuco?!) onde não se metia em brigas e discussões. Disse que a sua fé era protestante - Dom Robinson - um protestante anglicano.

Citou na sua palavra o hino que representa a fé que Dom Robinson professava:

“Em nada ponho a minha fé,/ senão na graça de Jesus,/
no sacrifico remidor,/ no sangue do bom Redentor.
A minha fé e o meu amor/ estão firmados no Senhor,/
estão firmados no Senhor".
(A Minha Fé e o Meu Amor de Edward Mote e Bradbury).

Rev. Mozart Noronha diz que a reflexão sobre a morte é uma reflexão.
Citou Romanos 8.26 - que nos mostra como não estamos sós em nossas dores - “Do mesmo modo também o Espírito nos ajuda na fraqueza; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidos inexprimíveis.”

Disse das dificuldades da vida e como o grande hino brasileiro de Antonio de Campos Gonçalves/e da amada Henriqueta Rosa Fernandes Braga- Eu Creio, Senhor, na Divina Promessa - e que está no Hinário Evangélico, Novo Cântico e HCC (283 HCC)

1. Eu creio, Senhor, na divina promessa.
Vitórias já tive nas lutas aqui.
Contudo é verdade que a gente tropeça;
por isso, Senhor, eu preciso de ti.

2. A luz que me guia no escuro caminho
fulgura de cima, do sol criador.
Contudo não posso segui-la sozinho;
por isso eu preciso de ti, meu Senhor.

3. Bem sei que nas preces eu posso buscar-te;
jamais dessa bênção na vida eu descri.
Contudo é possível que dela me aparte;
por isso, Senhor, eu preciso de ti.

4. Esforços da terra, precário destino,
empenho dos homens, riqueza, o que for,
não valem a bênção do reino divino;
por isso eu preciso de ti, meu Senhor.


Citou a dificuldade que temos em palmilhar o vale da sombra da morte mas que tudo que é belo tem que morrer e citando novamente Rubem Alves, fala do tempo completo que é a eternidade. Diz ele – Eternidade é o tempo completo, esse tempo do qual a gente diz: "Valeu a pena". A saudade é o rosto da eternidade refletido no rio do tempo (...) Saudade é a presença de um ausência.

Citou o Senhor Jesus: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim nunca morrerá. (João 11.25-26).

Citando Cora Coralina que diz:

“Não sei se a vida é curta ou longa para nós,
mas sei que nada do que
vivemos tem sentido,
se não tocarmos o coração das pessoas”.

Muitas vezes basta ser:
colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta,

silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre,
olhar que acaricia,
desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar.
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. "

Voltou a falar de como as coisas belas e importantes morrem e disse sobre na morte embelezarmos a vida com uma rara palmeira que tem no Aterro do Flamengo - Corypha umbraculifera – que vive entre 40 e 80 anos e dá apenas uma florada. Ele disse que passando viu elas todas brancas, flores brancas florindo. Elas morrem estas sementes que vem com as flores semeiam novamente a terra.

Fui pesquisar e aprendi mais sobre esta espécie - “Acima da copa de folhas em leque, que começam a secar e cair, forma-se nova copa, de oito metros de diâmetro, instituída de mais de um milhão de pequenas flores brancas. Quase um quinto das flores oferecem sementes férteis e, cumprida sua parte na tarefa de perpetuação da espécie, a palmeira morre". Algumas palmeiras da espécie Corypha umbraculifera estão florindo no Aterro do Flamengo, onde foram plantadas na época da inauguração do parque, em 1965. A característica dessas palmeiras é que dão apenas uma florada durante toda a vida, que dura entre 40 e 80 anos. Depois da florada ela morre. É a maior florada do reino vegetal.” http://www.estadao.com.br/noticias/cidades,palmeiras-no-aterro-do-flamengo-florescem-e-vao-morrer,471326,0.htm


Disse Mozart Noronha que a vida de cada um de nós não deve ser medida assim – curta ou longa. Ela deve ser intensa. Intensa enquanto durar.

Citou por duas vezes nosso maior músico da cristandade e de todos os tempos – J.S.Bach. E temina assim citando-o:

"Vem Jesus, vem, meu corpo está cansado
e eu agora anseio pela tua paz.
Tu és o caminho correto (...).
Eu confio em Ti,
e em Tuas mãos eu digo: Boa noite.
Apressa Senhor...
minha vida está preparada.

Finalizou assim: Jesus é e continua a ser o verdadeiro Caminho.
Deus abençoe e guarde oo rev. Mozart Noronha e o Pároco da Paróquia Anglicana da SS Trindade em Copacabana - Rev. Carlos Alberto Chaves Fernandes - o amigo e querido Beto -


.....
Este foi um feliz momento para a minha alma queridos amigos.
Como eu precisava daquela liturgia, desta mensagem...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Dom Robinson, a tragédia, e nós.

Esta tragédia que todos já leram e viram nos noticiários - morte violenta do bispo Robinson e sua esposa, à facadas pelo próprio filho (adotivo alguns dizem, mas adotivo é filho!) dói em cada um de nós.

Fico pensando no grande drama familiar que não começou no dia do assassinato mas que ele, o bispo, tinha que lidar e administrar durante anos.

Penso no drama nosso de cada dia.
Penso na vida de cada líder que dirige igrejas, prega, ensina,
escreve, que tem que estar à frente mas que quando chega em casa
a dor, a solidão, a violência, a incompreensão é a sua vida real.
Sei como é isto.
Todos os adultos maduros e conscientes sabem o que é isto.

Deus abençoe todos os que estão à frente, no topo, na vitrine.
Que suas mentes e corações sejam fortalecidos.

Compaixão e misericórdia, força, ânimo, coragem para todos os pais
que amando muito são machucados com
o desamor, com a violência,
com o livre arbítrio de cada um.

abraços
westh ney - http://www.blogdawesth.blogspot.com/
“No essencial - unidade; nas diferenças - liberdade; e em todas as coisas - o amor." (teólogo Peter Meiderlin)

Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil - STBSB/ FABAT, Tijuca - Rio
Licenciatura em Música (com especialização em Gestão de música eclesiástica), Teologia e Pedagogia.
www.seminariodosul.com.br

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Em tempo de dor e angústia, como calar, consolar e tornar a alma quieta até tudo passar ?

Todos morrerão um dia. Ora, isto é claro, e desde que nascemos somos preparados e ensinados sobre a passagem inevitável que todos faremos, que é uma realidade difícil, mas só que saber não é certeza de aceitar, encarar ou não sofrer. A perda pela morte de pessoas que amamos é algo que arrebenta a nossa alma, e por mais que queiramos, é difícil esquecer ou apagar.

E ela - a morte - chega de diversas formas. Alguns são levados por balas perdidas ou assaltos, por doença longa com muito sofrimento ou porque o coração cansa e morrem subitamente – assim foi com meu querido e amado pai – sendo idosos ou não.

Meu avô partiu com 104 anos, mas meu pai foi sem se despedir, aos 73 anos, depois de trabalhar o dia inteiro. Como a vida do meu pai foi importante para mim! Ninguém nunca saberá o quanto ... Minha mente entende, mas meu coração acha que ele ainda era muito novo. Eu, minha mãe Elcy , junto com minhas irmãs – Minie Lou, Dorine e Débora - sofremos muito, e foram momentos difíceis aqueles. Nem desconfiávamos que piores dias nos sobreviriam.

Enquanto o coração ainda cicatrizava, fomos tragadas pela tragédia que invadiu nossa família, quando no vigor da vida perdemos de uma só vez minha irmã caçula Débora Rodrigues Antunes, 41 anos, meu sobrinho Rodrigo Rodrigues Antunes, 20 anos e meu cunhado-irmão Luís Hollandino Antunes, 44 anos, no dia 9/12/2002, quando parte da sua casa desabou durante as chuvas torrenciais que invadiram Angra dos Reis. Eles, os pais, chegaram da Igreja bem tarde, pois estavam ensaiando para o Congresso de adoração, que minha irmã estaria dirigindo na semana seguinte. Rodrigo, meu sobrinho, dormia, e minha sobrinha, a Carol, de 13 anos esperava por eles. Chegando em casa, passado algum tempo e sentindo o perigo, Luís providenciou tudo na maior urgência, correndo para acordar seu filho que dormia tranqüilamente. Não houve tempo para nada, pois a tromba d’água que se abateu sobre a cidade saiu arrastando uma floresta sobre a casa nova que eles tinha construído três meses antes. Como é difícil relatar, escrever sobre isto, mesmo passados dez meses. Minha sobrinha Carol foi socorrida com vida - era costume minha irmã ler a Bíblia com a filha – pois sua mãe caiu por cima dela, ficando a Bíblia entre as duas.

Enquanto Carolina lutava no hospital em Angra, nós nos apegávamos à idéia de estarmos equilibrados - parecia que iríamos enlouquecer de tanta dor – para poder cuidar dela, cercá-la de todo amor e criá-la como minha irmã desejaria. Respirou por aparelhos, ficou em coma induzido para não sentir dor. Cada dia o quadro foi piorando, rins, pulmões, mas a nossa fé estava inabalável, pedindo a Deus que cuidasse dela e fizesse a sua Santa vontade na vida daquela menina serva de Deus que adorava o Senhor com danças, ministério este que levava muito a sério.

No dia 23/12, Carol fez 14 anos no hospital, e no dia seguinte, às 18h, ela partiu para junto de Deus. Disse para o médico que a assistiu nos momentos finais que gostaria de estar junto com seus pais, pois lá era melhor. Na manhã de Natal de 2002, lá estávamos nós no culto fúnebre de Carolina, a nossa menina, cantando e chorando na nossa meia-noite, apesar de ser apenas 11horas de uma manhã muito triste.

Existe uma razão? Perguntas, indagações assolam nossas mentes, pois queremos entender o que nunca aceitará nosso coração. E a única certeza vital para mim ao enfrentar aquele momento é que estou nas mãos de Deus. A verdade é que a única certeza em um momento de dor tão pungente, profundo - quando você é cristão realmente - é a da presença do Senhor, e isto será a realidade mais marcante, e isto sim, fará a diferença maior, pois é neste momento que poderemos provar para que serve a nossa fé. A notícia da morte ainda nos deixa perplexos, mesmo sabedores que somos finitos; mas por mais dura que seja a situação vivida, precisamos ter a certeza de que Deus está no controle de tudo. Ah, como é necessário muita fé para entoar um bendito como o povo de Israel fazia em todos os momentos: "Bendito seja o Senhor que, dia a dia, leva o nosso fardo! Deus é a nossa salvação" (Sl 68.19).

Sei que vamos sobreviver, " ... pois o necessitado não será para sempre esquecido, e a esperança dos aflitos não se há de frustrar perpetuamente (Sl 9.18). Precisamos vigiar para que não sintamos que fomos traídos por estarmos sofrendo, ou sentir que fomos desamparados pelo próprio Deus. Pode ser que você tenha sido ensinado que, como crente nunca sofreria , não perderia bens, empregos, familiares ou saúde. E se assim acontecer, não deixe a desilusão tomar conta da sua alma por ter aprendido que nada de mal afligiria os filhos de Deus. Como eu gostaria que você não sofresse... Pense: nosso Deus é muito maior do que pensamos, e então você pode ficar consolado, mesmo com saudades, quando entrega sem reservas a sua dor ao Senhor. Sei que é muito difícil fazer isto de verdade e também sei quão difícil é explicar o sofrimento do ponto de vista humano; mas se pudéssemos aquietar nosso coração e esperar no Senhor ...

Querido leitor, saiba que qualquer palavra nunca será suficiente para suavizar a dor da separação ou mesmo a dor visceral que toma conta do nosso corpo em um momento como este, mas a Palavra de Deus, vinda através dos amigos e irmãos, vem fortalecer o pensamento de que a paz de Deus precisa nos valer. Veja que bela oração é o hino 68HCC, 2ª estrofe: "Sem o teu alento, forças não terei / e ao meu sofrimento não resistirei./Tua mão fraterna minha vida conduz./ Esperança eterna; tudo és tu, Jesus.

Experimente o consolo, a certeza que vem da carta aos Romanos 11:33-36, quando o apóstolo Paulo entoa o seguinte hino de adoração ao Senhor: "Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque, quem compreendeu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém". A minha dor ainda não cicatrizou e digo para vocês que de vez em quando vai doer... Mas isto só dá em gente... e gente que ama muito.

Eu nunca desanimo e nem deixo de lutar, mas a vida também segue seu rumo, e somos empurrados - literalmente - para nossas atividades de subsistência de modo que esquecemos de nós mesmos e de que existe um tempo de luto, até para uma reflexão; mas o corpo sente, então, que precisamos também do silêncio absoluto, do tempo da reflexão e do chorar. O problema é que muitas vezes precisamos consolar nossos familiares e então parece que crescemos além do sofrer; mas sempre chega "a noite", chega a nossa hora de estar dentro da nossa caverna.

Sabe, logo no início fazia como Elias, quando Deus lhe disse para reagir: Levantava, me alimentava, e saía para fazer o que precisava ser feito. Mas, sempre durante o dia surgia um momento em que precisava parar e ficar em repouso, escondida, pois era o momento crucial, quando as lembranças invadiam a alma. Dormia e saía pra trabalhar à noite. Em alguns momentos dormia somente por duas horas e é lógico que o corpo doía todo no dia seguinte e os pensamentos ficavam mais lentos. É preciso um cuidado redobrado para não adoecer, pois o sofrimento também acaba diminuindo a imunidade do corpo. Mas, Deus é e sempre foi em outras ocasiões a minha torre forte; faz-me lembrar de que sou humana, e, de que preciso parar. Parar para manutenção.

Sou a irmã mais velha e ela, a Débora, a caçula - que vi nascer literalmente, pois o parto foi em casa, e junto com meu pai fomos chamar a parteira - sendo a diferença de idade entre nós de 10 anos e nosso relacionamento mais do que irmãs. Levei-a para as vacinas, escola, ensinei piano, puxei orelhas, coloquei de castigo, aconselhava, marcava colado como qualquer mãe faria. Estive presente em reuniões de escola , entrega de boletim, providenciando documentos, passeando com ela, cursos de teatro... Para o seu casamento fiz dois grandes bolos – doce e salgado - cuidei da cerimônia, regi o coro. Foi minha grande ajudadora com meus filhos pequenos, me fazendo companhia. Vi seus filhos nascendo e minha casa era o porto de carinho e amor que eles sempre tinham e onde podiam estar.

Duas semanas antes de Deus convocá-la, ela me ligou e disse para eu não morrer e me cuidar, pois não resistiria se tal acontecesse, pois eu era a mãe que ela sempre desejou ter e que precisava muito do meu colo. Foi a última vez que nos falamos e por telefone ... Como eu desejaria estar com ela agora e dar-lhe muitos beijos e colos ! Sei que o tempo e a graça de Deus irão me ajudar.... Sei também que o Espírito de Deus , o Consolador, me ajudará a enfrentar e elaborar essa perda... Sei que Deus concederá paz ao coração da minha família, no tempo certo.

Sei e confio, pois na Palavra de Deus encontro as suas promessas e me uno ao salmista dizendo: "... dirão todos os cantores e tocadores de instrumentos: todas a minhas fontes estão em ti." (Sl 87.7); "Preciosa é à vista do Senhor, a morte dos seus santos." (Sl 116. 15); "Porém eu cantarei a respeito do teu poder; de manhã louvarei bem alto o teu amor, pois tu tens sido uma fortaleza para mim, um refúgio nos meus dias de aflição." (Sl 59.16); "O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã." (Sl 30.5) . Aliás, quando tudo aconteceu, minha mãe ficava andando pela casa, com a Bíblia aberta, lendo em Isaías 57.1: "Perece o justo, e não há quem considere isso em seu coração, os homens compassivos são retirados , sem que alguém considere que o justo é levado antes que venha o mal."

Eles amavam a Deus de uma maneira especial e Cristo reinava livremente nas suas vidas. Todos eram integrados e participantes no Reino do Senhor. Não mediam esforços investindo seu tempo e bens financeiros no Reino de Deus. A casa deles estava sempre cheia com muitos amigos após os cultos ou qualquer ocasião. O lar deles era um lugar de festa, amor, alegria e abrigo. A família ultimamente estava com uma maratona linda de leitura de livros cristãos e compartilhavam com alegria suas descobertas sobre a Palavra de Deus. Ainda hoje, como é difícil entender tudo o que acontece e por isto me apego na Palavra, onde e só ali poderei encontrar consolação . "Bem-aventurados os mortos, que desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras o acompanham." (Ap 14:13)

Recebi muitas mensagens de carinho tentando consolar . Algumas muito boas e outras que caíam no vazio, pois colocadas de forma não muito feliz, como: " ...vai passar...; não chore, eles já estão com o Senhor ; ... você vai encontrar com eles no céu; ...com o tempo, vai diminuir a dor! ; ...eram crentes? que bom, então já estão com Deus ! ... foi a vontade de Deus..." Precisamos estar atentos para não ficarmos repetindo frases decoradas e sem sentido, pois quem está sofrendo não precisa de muita coisa. Precisa apenas de abraço sincero em silêncio.

Sentir, ouvir os lamentos, enxugar as lágrimas, chorar e orar junto são expressões de solidariedade que fazem muito bem. Recebi palavras que soaram como jóias ao meu coração, como: "Sabemos que o bom Deus há de consolar seu coração...; choro com você; ..vou orar por você e seus familiares; ...estou à sua disposição se desejar minha ajuda, pode contar; ...quando tiver vontade de chorar, não se reprima; .. se quiser um ouvido, olha o meu telefone aí embaixo...

Li alguns livros que tinha comprado para ajudar minhas amigas enfermas e familiares em outras situações - pois aqui em casa, no espaço de 2 anos estávamos enterrando pessoas queridas de 6 em 6 meses - mas não podia imaginar que seriam úteis para mim em mais um momento de tristeza, que foi esta tragédia. Eis os livros: O nominável e o inominável., Mannoni, ed. Zahar ; Enfrentando a morte, J. Bayly, ed. Mundo Cristão; Quando alguém que você ama está morrendo, Drª Ruth Kopp, ed. Juerp; Quando a tragédia nos atinge, Almir Gonçalves Jr., ed. Juerp

Caro leitor, muitas circunstâncias nos são impostas e isto faz parte do estar vivo, é um caminhar sem volta, é algo inexorável. É a vida, meu irmão... é o enigma da morte, que quando vem de repente e em forma de tragédia, parece que nunca vamos aceitar, pois realmente, como é difícil entender a vontade de Deus na nossa vida. Mas, será que compete a mim entender? Acho que Deus é soberano e é meu pai. Aceito a sua vontade pela fé, a mesma que sempre me sustentou, pois vocês já pensaram quão poderosos seríamos se tudo fosse explicável. Sei que eles estão guardados por Deus e só me resta confiar e viver da melhor maneira, quer dizer, viver como Deus deseja, sendo alvo da Sua vontade e esperando a minha passagem. Minha 1ª neta está chegando e meu filho caçula, Felipe, e sua esposa Cyntia, resolveram chamá-la Débora ,como uma homenagem de quem está chegando para quem partiu e que foi vitoriosa em sua pouca vida.

Por que meus amores foram levados, jamais entenderei ... Luiz, Débora, Rodrigo e Carolina estavam aqui neste mundo como eu e você : somente de passagem. Sim, estamos passando. Simplesmente passando. Eles desejavam em vida abalar – este era o termo que usavam - Angra dos Reis com a Palavra de Cristo e assim fizeram. No domingo pela manhã, Débora disse para a sua igreja que quando morresse desejava que fosse só louvor em forma de cantos. Na madrugada de 2ª feira ela e sua linda família abalaram a cidade com cantos de adoração e gratidão ao Senhor entoados por seus amigos e familiares, no templo da Igreja evangélica congregacional. Honra e glória ao Senhor sejam sempre dadas para sempre, em qualquer circunstância.

Abraços,

Westh Ney Rodrigues Luz