Meu pai nunca disse o que eu deveria fazer ou ser, nunca me deu conselhos, ou censurou minhas decisões afetivas, profissionais ou mesmo espirituais. Nunca. . Enquanto caminhava com ele pelas ruas cheias e claras ou escuras e vazias do centro do Rio, ou no ônibus cheio ou no carro (ouvindo Nelson Gonçalves), o meu pai só ouvia, ouvia, ouvia... . Ele me escutava, e eu via seu meio sorriso, ou escutava suas raras gargalhadas, ou apenas um "hum hum" com lábios cerrados que sempre acreditei serem um "sim sim". E eu falava, falava, falava muito... Contava histórias, quase sem respirar, e sonhava, sonhava, sonhava... . Ele? Escutava, escutava, escutava... e sorria com seus olhos pequenos e pretos. . Hoje, ele não mais pode me ouvir, e não sinto falta de falar com ele. Já falei tudo. Só sinto falta do seu silêncio e também de...